terça-feira, 27 de janeiro de 2009






Thich Nhat Hanh* 



A Primeira Ceia - Gratidão

 


Durante uma conferência sobre paz e religião, um pastor protestante aproximou-se de mim perto do final de uma das refeições que fizemos juntos e disse: "Você é uma pessoa grata?" Fiquei surpreso. Eu estava comendo lentamente, e pensei: Sim, sou uma pessoa grata. O pastor prosseguiu: "Se você é realmente grato, como pode não acreditar em Deus? Deus criou tudo o que desfrutamos, inclusive o alimento que comemos. Como não acredita em Deus, você não é grato por nada."

 

Pensei comigo mesmo. Sinto-me extremamente grato por tudo. Todas as vezes em que toco a comida, sempre que vejo uma flor, quando respiro ar puro, sempre me sinto grato. Por que ele diria que não sou? Foi pensando nesse incidente, muitos anos depois, que propus a alguns amigos em Plum Village que celebrássemos todos os anos um Dia de Ação de Graças budista. Nesse dia, praticamos a verdadeira gratidão - agradecendo a nossos pais, mães, ancestrais, amigos e todos os seres por tudo. Se você encontrar aquele pastor protestante, espero que diga a ele que não somos mal-agradecidos. Somos profundamente gratos por todas as pessoas e todas as coisas.

 

Sempre que fazemos uma refeição, praticamos a gratidão. Somos gratos por estarmos juntos numa comunidade. Somos gratos por termos alimentos para comer, e realmente apreciamos a comida e a presença uns dos outros. Sentimo-nos gratos durante toda a refeição e todo o dia, e expressamos esse sentimento ficando completamente conscientes da comida e vivendo profundamente cada momento. É assim que tento manifestar minha gratidão a toda a vida.

 

Comer conscientemente é uma prática importante. Ela alimenta nossa consciência. As crianças são bastante capazes de praticar conosco. Nos mosteiros budistas fazemos nossas refeições em silêncio para tornar mais fácil prestarmos a mais completa atenção à comida e aos outros membros da comunidade que estejam presentes. E mastigamos totalmente cada pedaço de comida, pelo menos 30 vezes, para que possamos estar verdadeiramente em contato com ela. É muito bom para a digestão comer dessa maneira.

 

Antes de cada refeição, um monge ou uma monja recita as Cinco Contemplações: "Este alimento é presente de todo Universo, ele veio da terra, do céu, de numerosos seres vivos e de muito trabalho árduo. Que possamos comê-lo em plena consciência e com gratidão a fim de sermos dignos de recebê-lo. Que possamos reconhecer e transformar nossas formações mentais não saudáveis, principalmente nossa ganância, e aprendermos a comer com moderação. Que possamos manter nossa compaixão viva através de uma alimentação que alivie o sofrimento dos seres vivos, preserve nosso planeta e reverta o processo de aquecimento global. Aceitamos este alimento para que possamos nutrir e fortalecer nossa Sangha e cultivar nosso ideal de servir a todos os seres. " (*)

 

Podemos então ver profundamente a comida, de uma forma que permita que ela se torne real. Contemplar nosso alimento antes de ingeri-lo conservando a mente alerta pode ser uma verdadeira fonte de felicidade. Sempre que tenho nas mãos uma tigela de arroz, reconheço que sou muito afortunado. Sei que 40 mil crianças morrem todos os dias por falta de comida e que muitas pessoas estão solitárias, sem amigos ou família. Visualizo-os e sinto uma profunda compaixão.

 

Não precisamos estar num mosteiro para realizar essa prática. Podemos praticar em casa na hora das refeições. Comer com a mente alerta é um modo maravilhoso de nutrir a compaixão e nos encoraja a fazer alguma coisa para ajudar os que estão famintos e solitários. Não precisamos ter receio de comer sem ter a televisão, o rádio, o jornal ou uma conversa complicada para nos distrair. Com efeito, é maravilhoso e alegre estarmos completamente presentes com nossa comida.

 

Na tradição judaica, a qualidade sagrada da hora da refeição é extremamente enfatizada. As pessoas cozinham, põem a mesa e comem na presença de Deus. "Devoção" é uma palavra importante no judaísmo, porque toda a vida é um reflexo de Deus, a fonte infinita da santidade. O mundo inteiro, todas as coisas boas na vida, pertencem a Deus, de modo que, quando apreciamos alguma coisa, pensamos em Deus e a desfrutamos na presença Dele. Este conceito é muito parecido com a apreciação budista da interexistência e da interpenetração.

 

Quando despertamos, temos consciência de que Deus criou o mundo. Quando vemos os raios da luz do sol entrando através da janela, reconhecemos a presença de Deus. Quando nos levantamos e nosso pé toca o chão, sabemos que a terra pertence a Deus. A devoção é o reconhecimento de que tudo está ligado à presença de Deus em cada momento. O Seder da Páscoa, por exemplo, é uma refeição ritual que celebra a libertação dos israelitas da escravidão no Egito e sua jornada de volta ao lar. Durante a refeição, certos legumes, verduras e ervas, o sal e outros condimentos nos ajudam a entrar em contato com o que aconteceu no passado - com o que foi nosso sofrimento e o que foi nossa esperança. Trata-se de uma prática de alertar a mente.

 

O cristianismo é uma continuação do judaísmo, bem como o islamismo. Todos os ramos pertencem à mesma árvore. No cristianismo, quando celebramos a eucaristia, partilhando o pão e o vinho como o corpo de Deus, nós o fazemos no mesmo espírito de devoção, com a mente alerta, sabendo que estamos vivos, apreciando viver no momento presente. A mensagem de Jesus durante o Seder que se tornou conhecido como a Última Ceia foi bem clara. Seus discípulos o vinham acompanhando. Haviam tido a oportunidade de olhar nos olhos Dele e vê-lo em pessoa, mas parece que ainda não haviam entrado realmente em contato com a maravilhosa realidade do ser dele. Por conseguinte, quando Jesus partiu o pão e serviu o vinho, ele disse: "Este é Meu Corpo. Este é Meu Sangue. Bebam e comam deles e encontrarão a vida eterna." Foi uma maneira drástica de despertar Seus discípulos da negligência.

 

Quando olhamos à nossa volta, vemos muitas pessoas em quem o Espírito Santo não parece habitar. Elas parecem mortas, como se estivessem arrastando um cadáver, seu próprio corpo.  A prática da eucaristia Visa ajudar a ressuscitar essas pessoas para que possam tocar o Reino da Vida. Na igreja, a eucaristia, ou comunhão, é recebida sempre que é celebrada uma missa.

 

Representantes da Igreja lêem a passagem bíblica a respeito da Última Ceia de Jesus com Seus doze discípulos, e um tipo especial de pão, a Hóstia, é partilhado. Todos participam como uma forma de receber a vida de Cristo no corpo. Quando o padre executa o ritual da eucaristia, seu papel é levar a vida à comunidade. O milagre acontece não porque ele pronuncie corretamente as palavras, mas porque comemos e bebemos com a mente alerta. A Sagrada Comunhão é um poderoso sino para alertar a mente.

 

Bebemos e comemos o tempo todo, mas geralmente só ingerimos nossas idéias, projetos, preocupações e ansiedade. Não comemos realmente nosso pão nem bebemos nossa bebida. Se nos permitirmos tocar profundamente nosso pão, renasceremos, porque nosso pão é a própria vida. Ao comê-lo profundamente, tocamos o sol, as nuvens, a terra e tudo no universo. Entramos em contato com a vida e com o Reino de Deus. Quando perguntei ao cardeal Jean Daniélou se era possível descrever a eucaristia dessa maneira, ele respondeu que sim.

 

É irônico que quando o padre celebra a missa hoje em dia, muitos membros da congregação não tenham a mente alertada. Eles já ouviram tantas vezes as mesmas palavras, que ficam um pouco distraídos. É exatamente isso que Jesus estava tentando superar quando disse: "Este é Meu Corpo. Este é Meu Sangue." Quando vivemos verdadeira e profundamente no momento presente, podemos perceber que o pão e o vinho são realmente o Corpo e o Sangue de Cristo e que as palavras do padre são realmente as palavras do Senhor. O corpo de Cristo é o corpo de Deus, o corpo da suprema realidade, a causa de toda a existência. Não temos de procurá-lo em nenhum outro lugar. Ele reside nas profundezas do nosso ser. O rito eucarístico nos estimula a ficar completamente conscientes para que possamos tocar o corpo da realidade dentro de nós. O pão e o vinho não são símbolos. Eles encerram a realidade, assim como nós a encerramos.

 

Quando budistas e cristãos se reúnem, devemos partilhar uma refeição com a mente alerta como uma prática profunda de comunhão. Quando pegamos um pedaço de pão, podemos fazê-lo com a mente alerta, com Espírito. O pão, a Hóstia, torna-se objeto da nossa concentração e amor profundos. Se nossa concentração não for suficientemente intensa, podemos tentar pronunciar silenciosamente a palavra "Pão", da maneira como diríamos o nome do ser amado. Quando fazemos isso, o pão se revela a nós em sua totalidade, e podemos colocá-lo na boca e mastigá-lo com plena consciência, sem mastigar mais nada, como nossos pensamentos, nossos temores ou mesmo nossas aspirações. Esta é a Sagrada Comunhão viver com fé. Quando praticamos dessa maneira, cada refeição torna-se a Última Ceia. Com efeito, poderíamos chamá-la de a Primeira Ceia, porque tudo o mais será novo e revigorante.

 

Quando comemos juntos dessa maneira, a comida e a comunidade de pessoas que praticam em conjunto são o objeto da nossa prática de alertar a mente. É através do alimento e da convivência que o supremo torna-se presente. Comer um pedaço de pão ou uma tigela de arroz com a mente alerta e perceber que cada bocado é uma dádiva do universo é viver profundamente. Não precisamos distrair-nos da comida, nem mesmo para prestar atenção às escrituras ou à vida dos bodhisattvas ou dos santos. Quando a mente está alerta, o Buda e o Espírito Santo já estão presentes.

 

(*) O texto das Cinco Contemplações passou a ter uma nova versão desde 2008 e esta é a tradução oficial das Sanghas brasileiras.


Monge budista vietinamita, poeta e ativista dos direitos humanos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King. É o autor de mais de 60 livros. Mora em Plum Village, um centro de meditação na França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros na arte de viver em plena consciência..

 

(Do livro “Vivendo Buda, Vivendo Cristo” – Thich Nhat Hanh)


Consciência no Momento Presente

 

Nossa alegria, nossa paz, nossa felicidade depende muito de nossa prática em reconhecer e transformar nossas energias de hábito. Há energias de hábito positivas que nós temos que cultivar, há energias de hábito negativas que nós temos que reconhecer, conter e transformar. A energia através da qual nós fazemos estas coisas é a Consciência. Consciência é um tipo de energia que nos ajuda a estar atentos ao que está acontecendo. Então, quando a energia de hábito se mostra, nós sabemos imediatamente. "Olá minha pequena energia de hábito, eu sei que você está aí. Eu cuidarei muito bem de você." Reconhecendo-a como ela é, você estará no controle da situação. Você não tem de lutar com ela; de fato, o Buda não recomenda que se lute assim, porque aquela energia de hábito é você, e você não deveria lutar contra si mesmo.

 

Você tem que gerar a energia de consciência que também é você, e esta energia positiva fará o trabalho de reconhecer e conter a outra. Toda vez que você reconhece sua energia de hábito, você ajuda a transformá-la um pouco. A energia de hábito é como uma semente dentro de sua consciência, e quando ela se torna uma fonte de energia, você tem que reconhecê-la. Você tem que trazer sua consciência ao momento presente, e assim conter a energia negativa: "Olá, minha energia de hábito negativa. Eu sei que você está aí. Eu estou aqui com você." Depois de um, dois ou talvez três minutos, aquela energia voltará à forma de semente, para manifestar-se novamente mais tarde. Você tem que estar muito alerta.

 

Toda vez que uma energia negativa é contida pela energia de consciência, perderá um pouco de sua força à medida em que retorna como semente ao mais baixo nível de percepção. A mesma coisa é verdadeira para todas as outras formações mentais: seu medo, sua angústia, sua ansiedade, e seu desespero. Elas existem em nós na forma de sementes, e toda vez que uma das sementes é regada, se torna uma zona de energia no nível superior de nossa consciência. Se você não souber cuidar dela, causará dano, irá nos pressionar para fazer ou dizer coisas que magoarão a nós mesmos e as pessoas que nós amamos. Então, gerar a energia de consciência para reconhecer, conter e tomar conta destes hábitos é a prática. E a prática deve ser feita de um modo muito suave e não-violento. Não deve haver nenhuma luta, porque quando você luta, você cria danos dentro de si.

 

A prática budista está baseada na percepção [insight] da não-dualidade: você é amor, você é consciência, mas também é aquela energia de hábito que está dentro de você. Meditar não pretende transformá-lo em um campo de batalha, o certo lutando contra o errado, o positivo lutando contra o negativo. Esta não é uma atitude budista. Assim é que, baseado na percepção da não-dualidade, a prática deveria ser não-violenta. A consciência que contêm a raiva é como uma mãe que abraça seu filho, a irmã maior que abraça a irmã mais jovem. O abraço sempre traz um efeito positivo. Você pode trazer alívio, e pode fazer a energia negativa perder um pouco de sua força, apenas a contendo.

 

(Thay desenha em um quadro) Este círculo representa nossa consciência, e a parte mais baixa é chamada de consciência armazenadora. A parte superior é chamada a consciência mental. Na base da consciência de armazenadora, são armazenados muitos tipos de sementes: a semente do amor, a semente da compreensão, a semente do perdão, a semente do desespero, a semente da raiva - positiva e negativa -, elas são todas mantidas e preservadas na consciência de armazenadora. E toda vez que uma destas sementes é tocada ou regada, se manifestará na consciência mental superior como uma zona de energia, "energia número um." Criando seu medo, seu ciúme, seu desespero, sua depressão.

 

Um praticante é alguém que tem o direito de sofrer, mas que não tem o direito de não praticar. Pessoas que não são praticantes permitem que sua a dor, desgosto e angústia os subjuguem, os pressionem para dizer e fazer coisas que não desejam. Nós, que nos consideramos praticantes, temos o direito de sofrer como todo mundo, mas nós não temos o direito de não praticar. Então, nós temos que fazer algo, buscar coisas positivas dentro de nossos corpos e nossa consciência, tomar controle de nossas situações. É normal sofrer, é normal ficar bravo, mas não é normal se permitir ser engolfado pelo sofrimento. Nós sabemos que em nossos corpos e nossa consciência existem elementos positivos que nós podemos buscar em nosso favor. Nós temos que mobilizar estes elementos positivos para proteger a nós mesmos e cuidar das coisas negativas que estão se manifestando em nós.

 

O que normalmente fazemos é chamar a semente da consciência para vir à tona e também se manifestar como uma zona de energia, que nós chamaremos "energia número dois." A energia de consciência tem a capacidade de reconhecer, conter e aliviar o sofrimento, acalmando-o e também o transformando. Em cada um de nós existe a semente da consciência, mas se nós não praticarmos a arte de viver atentos, então aquela semente pode tornar-se muito pequena. Nós poderemos estar atentos, mas nossa consciência será muito pobre. Claro que, quando você dirige seu carro, você precisa de sua consciência. Uma quantia mínima de consciência é requerida para que você dirija, caso contrário você se envolveria em um acidente.

 

Nós sabemos que cada um de nós tem a capacidade de estar atento. Quando você opera uma máquina precisa de certa quantia de consciência, caso contrário acontecerá um acidente de trabalho. Em nosso relacionamento com outra pessoa, nós precisamos também de alguma quantia de consciência, caso contrário nós iremos prejudicar a relação. Nós sabemos que todos nós temos um pouco de energia de consciência, e esse é o tipo de energia que nós precisamos para cuidar de nossa dor e nosso desgosto.

 

Consciência é algo que todos nós podemos criar. Quando você bebe um pouco de água, e sabe que está bebendo água, isto é consciência. Nós chamamos isto de consciência de beber. Quando você inspira, e está atento que está inspirando, isso é consciência de respiração, e quando você caminha, e sabe que está caminhando, então isso é consciência de andar. Consciência de dirigir, consciência de cozinhar… vocês não precisam estar na sala de meditação para praticar a consciência. Você pode estar lá na cozinha, ou no jardim, e continuar cultivando a energia de consciência. Esta é a prática mais importante dentro de um centro de prática budista: você faz tudo atentamente, porque precisa muito desta energia, para sua transformação e cura. Você sabe que pode fazer isto, e o fará melhor se estiver envolvido por uma comunidade de irmãos e irmãs que estão fazendo as mesmas coisas que você. Sozinho você poderia esquecer, e poderia abandonar sua prática depois de alguns dias ou alguns meses. Mas se você vive permanentemente com uma Sangha, então será apoiado, e sua consciência ficará mais forte e mais forte diariamente, graças ao apoio da Sangha.

 

Para aqueles entre nós que praticam a consciência como uma arte de vivência diária, a semente de consciência guardada em nossa consciência armazenadora fica muito forte; e em qualquer momento que nós a tocamos, a chamamos para nos ajudar, então ela estará pronta para nós, como a mãe que, embora esteja trabalhando na cozinha, sempre está pronta para atender aos gritos do bebê toda vez que ele chorar. Assim nossa consciência está lá de forma que nós a possamos reconhecer, porque a consciência é definida principalmente como a energia que nos ajuda a saber o que está acontecendo no momento presente.

 

Eu bebo água, eu sei que estou bebendo a água. Bebendo a água é o que está acontecendo. Eu caminho atentamente, piso atentamente, e sei que estou fazendo passos atentos. Consciência de andar: Eu estou consciente que meu caminhar está acontecendo, e eu me concentro no andar. A consciência tem o poder de trazer concentração. Quando você bebe atentamente sua água, você se concentra em seu ato de beber. Se você se concentra, a vida se aprofunda, e você é capaz de adquirir mais alegria e estabilidade apenas por beber sua água atentamente. Você pode dirigir atentamente, você pode cortar atentamente cenouras, e quando faz atentamente tais coisas, sente que você está concentrado. Você vive cada momento de sua vida diária profundamente, e todos nós sabemos que a consciência e a concentração produzirão o insight que nós precisamos.

 

Se você não pára, se você não fica atento, se você não se concentra, então não há nenhuma chance de você adquirir tal "insight". Meditação budista significa parar, se acalmar, se concentrar, e dirigir seu olhar profundamente no que ocorre no aqui e agora. O primeiro elemento da meditação budista é o parar, e o segundo elemento é olhar profundamente. Parar significa não correr mais, estar atento ao que está acontecendo no aqui e agora. A consciência lhe permite estar no aqui e agora, com o corpo e mente unidos. Em nossas vidas diárias acontece muito freqüentemente que nosso corpo esteja lá, mas nossa mente está em outro lugar, no passado ou no futuro, ou presa de nossos projetos, nossos medos, nossas raivas. A consciência nos ajuda a trazer a mente de volta ao corpo, e quando faz isto você subitamente fica verdadeiramente presente no aqui e agora. Assim você pode definir a consciência como a energia que lhe ajuda a estar completamente presente.

 

Se você está completamente presente, com sua mente e corpo verdadeiramente unidos, você imediatamente fica totalmente presente e totalmente vivo. É aquela energia que lhe ajuda a estar vivo e presente. Você pode trazer consciência a si de muitas formas: por apenas respirar, caminhar, olhar, cozinhar, por tomar café da manhã… pois você pode usar o ato de tomar café da manhã como um exercício para unir corpo e mente.

 

Eu gostaria de definir a consciência como a prática de estar ali, corpo e mente unidos. A prática de estar totalmente presente, a prática de estar totalmente vivo. Você tem um encontro com a vida - e você não deveria perdê-lo. O tempo e o espaço de seu encontro são o aqui e o agora. Se você perde o momento presente, se você perde o aqui e o agora, você perde seu encontro com a vida, o que é muito sério. Assim aprender a voltar para o momento presente, estar completamente presente, estar completamente vivo, é o início da meditação.

 

Uma vez estando ali, uma outra coisa também está lá: Vida. Se você não estiver disponível para a vida, então a vida não estará disponível para você. Quando você está com um grupo de pessoas e contempla a lua ascendente, você precisa estar atento, você precisa estar no aqui e agora. Se você se deixar perder no passado ou no futuro, a lua cheia não será para você, mas para as outras pessoas que estão ali. Assim, se você sabe praticar a respiração atenta, você pode trazer sua mente de volta a seu corpo, e pode se fazer plenamente presente e plenamente vivo, e então a lua existirá para você. Por isso eu digo que se você estiver presente, uma outra coisa estará lá também: Vida.

 

A Consciência ajuda-o a realizar o ato de parar. Você deixa de correr porque realmente está ali. Você deixa de ser envolvido por sua energia de hábito, por seu esquecimento. E quando você toca algo bonito, com consciência, este algo se torna um elemento refrescante e curativo para você. Com consciência nós podemos tocar as coisas positivas, e também podemos tocar as coisas negativas. Se há alegria, a consciência nos permite reconhecer isto como alegria, e a consciência nos ajuda usufruir desta alegria e a permite crescer, e nos ajuda no trabalho de transformação e cura.

 

Há elementos dentro de nós que não estão errados. Há elementos ao redor de nós que não estão errados. E a primeira tarefa dos meditadores é serem capazes de tocar e reconhecer estes elementos positivos, porque eles têm o poder de nutrir e curar. Se você é um psicoterapeuta, poderia gostar de tentar isto com seus pacientes: em vez de falar sobre o que está errado, você os convida a falar sobre o que não está errado com eles e ao seu redor. Às vezes nós estamos muito fracos ou muito doentes para lidar apenas com nossos elementos negativos. Antes que uma cirurgia seja feita, um doutor examinará o paciente para ver se aquela pessoa tem bastante força para resistir à cirurgia. Se a pessoa é muito fraca, o doutor tentará, através da nutrição e outros meios, a ajudar o corpo do paciente a se fortalecer antes da operação ser feita. Nós fazemos a mesma coisa aqui. Se uma pessoa sofre muito, nós não deveríamos começar falando sobre o que está errado.

 

Nosso corpo e nossa consciência são como um jardim: pode haver várias árvores morrendo naquele jardim, mas isso não significa que o jardim inteiro esteja morto. Talvez a maioria das árvores ainda seja vigorosa, bonita. Por isso que você não deveria permitir ao negativo lhe subjugar, porque ainda há muitas coisas que estão bem em nossos corpos e nossa consciência. O terapeuta deveria ajudar seu paciente a desenvolver a habilidade de identificar estes elementos positivos dentro de si, e ao seu redor. E o terapeuta, claro está, tem que poder fazer isso por ele ou ela, e se tornar um co-participante. O terapeuta pode convidar seu paciente para uma sessão de meditação andando, e durante esta sessão ele tentará pôr o paciente em contato com os elementos positivos dentro dele ou ao redor dele. Na prática budista isto é muito importante. Consciência é a energia que nós geramos, e primordialmente nós queremos esta energia para nos ajudar a estar em contato com coisas positivas - alegria e felicidade.

 


(Traduzido por Cláudio Miklos da Discussão de Dharma de Thich Nhat Hanh em Plum Village em  6 de agosto de 1998)

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