sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Uma Palestra Genial
Responsabilidade Universal,
Direitos Humanos e Paz
1. Eu me uno a todos que rendem homenagem a Sua Santidade o Dalai Lama como consciência articulada da humanidade, encarnação da sabedoria e da compaixão, alguém que transcendeu o ego e as limitações que este impõe. Hoje pudemos ver a diversidade e a riqueza dos ângulos a partir dos quais esse assunto pode ser visto. Eu escolhi um desses ângulos, ao qual vou me ater.
2. Ao focalizar a atenção da humanidade na responsabilidade universal e ao nos convidar para uma reflexão a respeito das causas da nossa atual condição, dos desafios que enfrentamos hoje e o caminho para sobrevivermos e progredirmos, Sua Santidade o Dalai Lama nos lembra dos paradigmas imutáveis da espécie humana. Diferente das outras espécies, os humanos não estão condenados a viver prisioneiros de seus próprios instintos. As características específicas de suas mentes e de suas vontades lhes dão a condição de refinar e domar seus instintos, como também de se aventurar além desses limites. Suas mentes os habilitam a entender as leis da natureza, imaginar ou enxergar alternativas, formular e definir metas, e mobilizar os meios e tomar os rumos que os levem às suas metas. Todas as suas ações, portanto, se baseiam em escolhas. Elas podem ser pensadas, impulsivas ou inconscientes. Podem resultar de inércia, covardia ou audácia. Mas, em qualquer dos casos, a ação ou reação envolve escolhas a partir de alternativas e, portanto, o ser humano tem que assumir a responsabilidade pelas conseqüências que decorrem de suas escolhas e ações. Essa responsabilidade não recai sobre os demais animais. Assim, com a habilidade de se aventurar além dos limites dos instintos, os seres humanos adentraram os domínios da responsabilidade. O ser humano, portanto, é responsável pelo que faz de sua vida e com seu ambiente social e natural, assumindo essa responsabilidade não só frente a si mesmo como também frente a todos aqueles cujas vidas são afetadas por suas ações e em cujo nome faz escolhas e toma decisões para poder agir.
3. As escolhas que o ser humano é levado a fazer são muitas e se apresentam em todos os campos e aspectos da vida e, na verdade, a todo momento vivido. Para mencionar somente algumas, elas afetam nossas motivações, nossas ações e reações nas áreas de consumo, produção, nos relacionamentos, nos limites institucionais da nossa sociedade, nas organizações que formamos ou usamos, nos processos decisórios, nas aprovações para nos adequarmos às decisões consensuais, nas instituições onde há opiniões divergentes, nos conflitos que surgem como resultado de diferenças, nos meios que adotamos para solucionar esses conflitos e assim por diante.
4. A necessidade de fazer escolhas e a liberdade de escolher surge a partir da nossa habilidade de entender a natureza e suas leis. O ser humano tem a capacidade de entender a lei fundamental de causa e efeito que rege o universo no qual atua. Consegue correlacionar eventos e acontecimentos com suas causas. Percebe que a relação entre causa e efeito é imutável e inexorável. Uma vez que tem a capacidade de identificar causas, também assume a responsabilidade de prever os efeitos dessas causas, ou as causas que provoca com suas ações. Essa habilidade não só o habilita a acompanhar as causas que surgem no momento presente, como também a prever os possíveis efeitos decorrentes das causas que cria, tanto pela ação individual como pela ação coletiva ou grupal.
5. A escolha crucial que hoje se apresenta à humanidade é decidir entre a sobrevivência e o suicídio, a sobrevivência e a extinção. Armas de destruição em massa, terrorismo e avançados métodos tecnológicos de guerra puseram a humanidade face a face com todo o espectro de destruição indiscriminada e completa da espécie e de tudo o que apoia a vida tal como existe hoje no planeta. Ninguém está a salvo. Nada é seguro. Ninguém está imune. Ninguém pode garantir segurança. As fronteiras perderam o seu significado. Todas as distinções entre combatentes e não combatentes, vítimas e vencedores foram apagadas. Todos estão vulneráveis. Nem mesmo a maior superpotência pode prever onde e como a destruição vai acontecer, muito menos criar um escudo de imunidade para proteger cidadãos ou instalações, inclusive instalações das quais a vida depende. Nenhuma arma sofisticada nem sistema de alarme pode garantir imunidade. Esse regime de vulnerabilidade universal tem produzido uma crescente consciência do significado da guerra e suas variações para o ser humano comum, inclusive para mulheres e crianças que têm sido talvez as mais atingidas por mortes, sofrimento, miséria e violação da dignidade humana, mais ainda do que os combatentes. Essa maior consciência tem levado a uma crescente disposição para intervir em defesa própria, contra a guerra como instrumento de política ou reconciliação. As manifestações de protesto contra guerras no Iraque e demais países, vistas em centenas de capitais pelo mundo, evidenciam o anseio universal das pessoas pela paz e pelos meios pacíficos de resolução de disputas.
6. Se o potencial bélico de auto destruição da espécie humana criou nas pessoas um anseio generalizado pela paz, gerou também uma consciência crescente do potencial de auto preservação da humanidade, da responsabilidade universal para se engajar em ações que assegurem a auto preservação. Não é suficiente que a paz surja como aspiração; ela tem que ser encarada e aceita como um imperativo para a sobrevivência e, portanto, como o objetivo soberano do indivíduo e dos grupos sociais. O atingimento de qualquer objetivo depende da nossa prontidão em renunciar a tudo que impeça o nosso progresso na direção desse objetivo. Isso ocorre quando o objetivo supremo é o objetivo da sobrevivência. Passa a ser muito necessário extirpar tudo o que signifique a antítese ou o repúdio à paz, e também promover o que quer que seja essencial e conducente à paz, escolher o caminho que leva à paz e não aquele que leva à guerra, à violência e aos viveiros onde germinam as sementes dos conflitos, dos ódios e dos espíritos vingativos. Agora reconhecemos que as guerras não surgem do nada. Elas emergem a partir de causas que têm seus próprios períodos de gestação. Tal como aceito pelas Nações Unidas, essas causas afloram na mente dos homens. Se devemos eliminar a guerra, suas causas têm que ser eliminadas e, uma vez que as causas que queremos eliminar surgem na mente humana, são as nossas mentes que têm que ser submetidas a um exame minucioso, trazidas sob o microscópio para detectar e eliminar as atitudes, crenças e instituições construídas com base nessas crenças que abrigam as sementes da guerra e da violência. As instituições podem e precisam ser submetidas a exame detalhados por aqueles que as criam e as mantêm, honrando o consentimento e as sanções que dão origem a sua existência e autoridade. Mas se essas, como também as crenças e as atitudes que as direcionam e sustentam, surgem e reinam nas mentes dos indivíduos, o principal objeto de escrutínio torna-se a mente do ser humano. Nenhum ser humano pode examinar a mente de outro com a mesma clareza e eficácia como faria com sua própria mente. As sementes da guerra não podem ser, portanto, eliminadas sem o exame implacável de nossas mentes, conduzido individualmente e em conjunto — e a responsabilidade por esse escrutínio é inalienável, inevitável e universal.
7. Nenhum ser humano, em circunstâncias normais, vive como uma ilha. Vive em sociedade. Sua vida, pensamentos, emoções e aspirações são todos influenciados por pensamentos, emoções e ações dos outros, — seja através das instituições ou do contato pessoal. Cada ser humano vive, portanto, através da interação constante com o ambiente que habita — seu habitat social como também seu habitat natural. A paz em sua mente, tanto quanto o estado de paz na sociedade em que vive, depende, portanto: (I) do estado e das atitudes mentais do indivíduo; (II) do estado do ambiente social no qual vive — incluindo o estado das instituições que dirigem sua vida econômica, política, cívica e social; e (III) do estado do ambiente natural que é afetado por suas ações individuais e coletivas, e do impacto resultante, que por sua vez afeta sua habilidade de satisfazer suas vontades e aspirações, como também as calamidades que são provocadas pela gradual acumulação dos efeitos de suas ações — como no caso da escassez e poluição, e calamidades naturais como enchentes, etc.
8. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos dirá que guerra ou paz não são um monólito, mas o resultado cumulativo de muitos ingredientes; que o edifício da paz não pode ser construído com tijolos cozidos no fogo do ódio ou da injustiça mútua; que cada tijolo terá, portanto, que ser examinado e cuidadosamente selecionado.
9. A escolha do caminho ou dos meios é igualmente crucial. Paz não é um evento. É um estado. Um estado da mente, conseqüentemente refletido no estado das instituições sociais. Tal estado mental não pode ser criado ou mantido pela maximização ou emprego de forças que são antitéticas à equanimidade e à paz. A paz é, portanto, um fim que não podemos atingir exceto através de meios que sejam coerentes com o objetivo, ou seja, a paz. Não pode ser que nós desejemos a paz, mas tentemos chegar a ela através do que a solapa e a destrói. Como disse o grande Shantideva, não pode ser que tentemos eliminar o sofrimento pela busca daquilo que faz sofrer. Dukhasya hetum ichhanti, dukham nechhanti manavah: — ou, como disse Buda: Ma Lohagulam gili pamatto, ma kandi dukham idamti dahyamano — "Se engolir a bola quente e vermelha, atraído pela sua cor rosada, quando ela o queimar não se lamurie de estar sofrendo uma dor excruciante."
10. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos revelará a relação inexorável entre paz e justiça. Não pode haver paz mental para o indivíduo, ou paz ou harmonia, numa sociedade onde a mente do indivíduo ou de muitos que constituem qualquer grupo são atormentadas pelo senso de injustiça e pela indignação que provém dela. Tal sentimento abre caminho para a desavença, a alienação, o desejo ardente de assegurar a justiça mesmo ao custo de uma ordem perturbadora e aparentemente pacífica que, de fato, se apóia na violência sistemática e na supressão — conduzindo afinal à sublevação violenta ou ao combate de um tipo ou de outro. A paz, portanto, depende da justiça e a justiça depende do sucesso da sociedade em assegurar oportunidades iguais de crescimento, auto-expressão e auto-realização. Um regime de iniqüidade ou oportunidades desiguais, condições desiguais de sobrevivência somente pode ser sustentado ou eternizado pela força, que é uma descrição eufemística de violência e das variantes de luta. As Nações Unidas reconheceram, portanto, que direitos humanos são pré-requisitos da paz. É a ausência, privação ou violação dos direitos humanos que conduz ao incitamento às violações da paz ou aos levantes que se precipitam em formas de luta. A renúncia às armas de destruição em massa é boa. Desarmamento é bom. Não são somente bons, mas necessários. Mas armas são sintomas, reflexos, resultados da crença de que a guerra é um instrumento legítimo e efetivo de acerto de diferenças e disputas em torno de interesses. Enquanto tal crença sobreviver, o espectro da guerra assombrará a humanidade. Depois de todos esses séculos de guerra, e depois da transformação que a guerra sofreu, tornou-se necessário avaliar a guerra como um instrumento — como um meio. Qual é o seu custo benefício para o cidadão, para a sociedade, para a humanidade? O preço que ela exige de nós vai além do que a humanidade pode pagar se quiser sobreviver? Ela terá se tornado fútil e suicida?
11. A paz, então, está inextricavelmente entrelaçada à presença dos direitos humanos; e sua violação ou privação em qualquer forma, seja no Tibet ou Dafur, na Índia, no Iraque, no Oriente Médio, ou onde quer que seja, cria motivos que colocam em perigo e solapam a paz. Todos os seres humanos têm direito à vida e, portanto, ao acesso a água, comida, abrigo e serviços médicos, inviolabilidade da dignidade humana, oportunidades iguais e tudo mais. Indivíduos, assim como grupos, têm esses direitos. Quando eles são negados, criam-se as causas do conflito e não da paz; e o resultado é guerra, terrorismo e outras formas de combate. Discriminação, privação, disparidades, manipulação de disparidades no acesso a recursos, e muitas outras ameaças à paz podem ser identificadas e analisadas. Estou certo de que muitos oradores e participantes neste seminário o farão. Meu objetivo específico foi colocar diante de vocês alguns pensamentos sobre os imperativos da paz e como estes dependem do senso universal de responsabilidade e do compromisso de engajamento no esforço para prevenir a guerra e para promover e sustentar a paz.
Obrigado!
(SHRI RAVINDRA VARMA
Presidente da
Gandhi Peace Foundation)
Thich Nhat Hanh*
A Primeira Ceia - Gratidão
Durante uma conferência sobre paz e religião, um pastor protestante aproximou-se de mim perto do final de uma das refeições que fizemos juntos e disse: "Você é uma pessoa grata?" Fiquei surpreso. Eu estava comendo lentamente, e pensei: Sim, sou uma pessoa grata. O pastor prosseguiu: "Se você é realmente grato, como pode não acreditar em Deus? Deus criou tudo o que desfrutamos, inclusive o alimento que comemos. Como não acredita em Deus, você não é grato por nada."
Pensei comigo mesmo. Sinto-me extremamente grato por tudo. Todas as vezes em que toco a comida, sempre que vejo uma flor, quando respiro ar puro, sempre me sinto grato. Por que ele diria que não sou? Foi pensando nesse incidente, muitos anos depois, que propus a alguns amigos em Plum Village que celebrássemos todos os anos um Dia de Ação de Graças budista. Nesse dia, praticamos a verdadeira gratidão - agradecendo a nossos pais, mães, ancestrais, amigos e todos os seres por tudo. Se você encontrar aquele pastor protestante, espero que diga a ele que não somos mal-agradecidos. Somos profundamente gratos por todas as pessoas e todas as coisas.
Sempre que fazemos uma refeição, praticamos a gratidão. Somos gratos por estarmos juntos numa comunidade. Somos gratos por termos alimentos para comer, e realmente apreciamos a comida e a presença uns dos outros. Sentimo-nos gratos durante toda a refeição e todo o dia, e expressamos esse sentimento ficando completamente conscientes da comida e vivendo profundamente cada momento. É assim que tento manifestar minha gratidão a toda a vida.
Comer conscientemente é uma prática importante. Ela alimenta nossa consciência. As crianças são bastante capazes de praticar conosco. Nos mosteiros budistas fazemos nossas refeições em silêncio para tornar mais fácil prestarmos a mais completa atenção à comida e aos outros membros da comunidade que estejam presentes. E mastigamos totalmente cada pedaço de comida, pelo menos 30 vezes, para que possamos estar verdadeiramente em contato com ela. É muito bom para a digestão comer dessa maneira.
Antes de cada refeição, um monge ou uma monja recita as Cinco Contemplações: "Este alimento é presente de todo Universo, ele veio da terra, do céu, de numerosos seres vivos e de muito trabalho árduo. Que possamos comê-lo em plena consciência e com gratidão a fim de sermos dignos de recebê-lo. Que possamos reconhecer e transformar nossas formações mentais não saudáveis, principalmente nossa ganância, e aprendermos a comer com moderação. Que possamos manter nossa compaixão viva através de uma alimentação que alivie o sofrimento dos seres vivos, preserve nosso planeta e reverta o processo de aquecimento global. Aceitamos este alimento para que possamos nutrir e fortalecer nossa Sangha e cultivar nosso ideal de servir a todos os seres. " (*)
Podemos então ver profundamente a comida, de uma forma que permita que ela se torne real. Contemplar nosso alimento antes de ingeri-lo conservando a mente alerta pode ser uma verdadeira fonte de felicidade. Sempre que tenho nas mãos uma tigela de arroz, reconheço que sou muito afortunado. Sei que 40 mil crianças morrem todos os dias por falta de comida e que muitas pessoas estão solitárias, sem amigos ou família. Visualizo-os e sinto uma profunda compaixão.
Não precisamos estar num mosteiro para realizar essa prática. Podemos praticar em casa na hora das refeições. Comer com a mente alerta é um modo maravilhoso de nutrir a compaixão e nos encoraja a fazer alguma coisa para ajudar os que estão famintos e solitários. Não precisamos ter receio de comer sem ter a televisão, o rádio, o jornal ou uma conversa complicada para nos distrair. Com efeito, é maravilhoso e alegre estarmos completamente presentes com nossa comida.
Na tradição judaica, a qualidade sagrada da hora da refeição é extremamente enfatizada. As pessoas cozinham, põem a mesa e comem na presença de Deus. "Devoção" é uma palavra importante no judaísmo, porque toda a vida é um reflexo de Deus, a fonte infinita da santidade. O mundo inteiro, todas as coisas boas na vida, pertencem a Deus, de modo que, quando apreciamos alguma coisa, pensamos em Deus e a desfrutamos na presença Dele. Este conceito é muito parecido com a apreciação budista da interexistência e da interpenetração.
Quando despertamos, temos consciência de que Deus criou o mundo. Quando vemos os raios da luz do sol entrando através da janela, reconhecemos a presença de Deus. Quando nos levantamos e nosso pé toca o chão, sabemos que a terra pertence a Deus. A devoção é o reconhecimento de que tudo está ligado à presença de Deus em cada momento. O Seder da Páscoa, por exemplo, é uma refeição ritual que celebra a libertação dos israelitas da escravidão no Egito e sua jornada de volta ao lar. Durante a refeição, certos legumes, verduras e ervas, o sal e outros condimentos nos ajudam a entrar em contato com o que aconteceu no passado - com o que foi nosso sofrimento e o que foi nossa esperança. Trata-se de uma prática de alertar a mente.
O cristianismo é uma continuação do judaísmo, bem como o islamismo. Todos os ramos pertencem à mesma árvore. No cristianismo, quando celebramos a eucaristia, partilhando o pão e o vinho como o corpo de Deus, nós o fazemos no mesmo espírito de devoção, com a mente alerta, sabendo que estamos vivos, apreciando viver no momento presente. A mensagem de Jesus durante o Seder que se tornou conhecido como a Última Ceia foi bem clara. Seus discípulos o vinham acompanhando. Haviam tido a oportunidade de olhar nos olhos Dele e vê-lo em pessoa, mas parece que ainda não haviam entrado realmente em contato com a maravilhosa realidade do ser dele. Por conseguinte, quando Jesus partiu o pão e serviu o vinho, ele disse: "Este é Meu Corpo. Este é Meu Sangue. Bebam e comam deles e encontrarão a vida eterna." Foi uma maneira drástica de despertar Seus discípulos da negligência.
Quando olhamos à nossa volta, vemos muitas pessoas em quem o Espírito Santo não parece habitar. Elas parecem mortas, como se estivessem arrastando um cadáver, seu próprio corpo. A prática da eucaristia Visa ajudar a ressuscitar essas pessoas para que possam tocar o Reino da Vida. Na igreja, a eucaristia, ou comunhão, é recebida sempre que é celebrada uma missa.
Representantes da Igreja lêem a passagem bíblica a respeito da Última Ceia de Jesus com Seus doze discípulos, e um tipo especial de pão, a Hóstia, é partilhado. Todos participam como uma forma de receber a vida de Cristo no corpo. Quando o padre executa o ritual da eucaristia, seu papel é levar a vida à comunidade. O milagre acontece não porque ele pronuncie corretamente as palavras, mas porque comemos e bebemos com a mente alerta. A Sagrada Comunhão é um poderoso sino para alertar a mente.
Bebemos e comemos o tempo todo, mas geralmente só ingerimos nossas idéias, projetos, preocupações e ansiedade. Não comemos realmente nosso pão nem bebemos nossa bebida. Se nos permitirmos tocar profundamente nosso pão, renasceremos, porque nosso pão é a própria vida. Ao comê-lo profundamente, tocamos o sol, as nuvens, a terra e tudo no universo. Entramos em contato com a vida e com o Reino de Deus. Quando perguntei ao cardeal Jean Daniélou se era possível descrever a eucaristia dessa maneira, ele respondeu que sim.
É irônico que quando o padre celebra a missa hoje em dia, muitos membros da congregação não tenham a mente alertada. Eles já ouviram tantas vezes as mesmas palavras, que ficam um pouco distraídos. É exatamente isso que Jesus estava tentando superar quando disse: "Este é Meu Corpo. Este é Meu Sangue." Quando vivemos verdadeira e profundamente no momento presente, podemos perceber que o pão e o vinho são realmente o Corpo e o Sangue de Cristo e que as palavras do padre são realmente as palavras do Senhor. O corpo de Cristo é o corpo de Deus, o corpo da suprema realidade, a causa de toda a existência. Não temos de procurá-lo em nenhum outro lugar. Ele reside nas profundezas do nosso ser. O rito eucarístico nos estimula a ficar completamente conscientes para que possamos tocar o corpo da realidade dentro de nós. O pão e o vinho não são símbolos. Eles encerram a realidade, assim como nós a encerramos.
Quando budistas e cristãos se reúnem, devemos partilhar uma refeição com a mente alerta como uma prática profunda de comunhão. Quando pegamos um pedaço de pão, podemos fazê-lo com a mente alerta, com Espírito. O pão, a Hóstia, torna-se objeto da nossa concentração e amor profundos. Se nossa concentração não for suficientemente intensa, podemos tentar pronunciar silenciosamente a palavra "Pão", da maneira como diríamos o nome do ser amado. Quando fazemos isso, o pão se revela a nós em sua totalidade, e podemos colocá-lo na boca e mastigá-lo com plena consciência, sem mastigar mais nada, como nossos pensamentos, nossos temores ou mesmo nossas aspirações. Esta é a Sagrada Comunhão viver com fé. Quando praticamos dessa maneira, cada refeição torna-se a Última Ceia. Com efeito, poderíamos chamá-la de a Primeira Ceia, porque tudo o mais será novo e revigorante.
Quando comemos juntos dessa maneira, a comida e a comunidade de pessoas que praticam em conjunto são o objeto da nossa prática de alertar a mente. É através do alimento e da convivência que o supremo torna-se presente. Comer um pedaço de pão ou uma tigela de arroz com a mente alerta e perceber que cada bocado é uma dádiva do universo é viver profundamente. Não precisamos distrair-nos da comida, nem mesmo para prestar atenção às escrituras ou à vida dos bodhisattvas ou dos santos. Quando a mente está alerta, o Buda e o Espírito Santo já estão presentes.
(*) O texto das Cinco Contemplações passou a ter uma nova versão desde 2008 e esta é a tradução oficial das Sanghas brasileiras.
* Monge budista vietinamita, poeta e ativista dos direitos humanos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King. É o autor de mais de 60 livros. Mora em Plum Village, um centro de meditação na França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros na arte de viver em plena consciência..
(Do livro “Vivendo Buda, Vivendo Cristo” – Thich Nhat Hanh)
Consciência no Momento Presente
Nossa alegria, nossa paz, nossa felicidade depende muito de nossa prática em reconhecer e transformar nossas energias de hábito. Há energias de hábito positivas que nós temos que cultivar, há energias de hábito negativas que nós temos que reconhecer, conter e transformar. A energia através da qual nós fazemos estas coisas é a Consciência. Consciência é um tipo de energia que nos ajuda a estar atentos ao que está acontecendo. Então, quando a energia de hábito se mostra, nós sabemos imediatamente. "Olá minha pequena energia de hábito, eu sei que você está aí. Eu cuidarei muito bem de você." Reconhecendo-a como ela é, você estará no controle da situação. Você não tem de lutar com ela; de fato, o Buda não recomenda que se lute assim, porque aquela energia de hábito é você, e você não deveria lutar contra si mesmo.
Você tem que gerar a energia de consciência que também é você, e esta energia positiva fará o trabalho de reconhecer e conter a outra. Toda vez que você reconhece sua energia de hábito, você ajuda a transformá-la um pouco. A energia de hábito é como uma semente dentro de sua consciência, e quando ela se torna uma fonte de energia, você tem que reconhecê-la. Você tem que trazer sua consciência ao momento presente, e assim conter a energia negativa: "Olá, minha energia de hábito negativa. Eu sei que você está aí. Eu estou aqui com você." Depois de um, dois ou talvez três minutos, aquela energia voltará à forma de semente, para manifestar-se novamente mais tarde. Você tem que estar muito alerta.
Toda vez que uma energia negativa é contida pela energia de consciência, perderá um pouco de sua força à medida em que retorna como semente ao mais baixo nível de percepção. A mesma coisa é verdadeira para todas as outras formações mentais: seu medo, sua angústia, sua ansiedade, e seu desespero. Elas existem em nós na forma de sementes, e toda vez que uma das sementes é regada, se torna uma zona de energia no nível superior de nossa consciência. Se você não souber cuidar dela, causará dano, irá nos pressionar para fazer ou dizer coisas que magoarão a nós mesmos e as pessoas que nós amamos. Então, gerar a energia de consciência para reconhecer, conter e tomar conta destes hábitos é a prática. E a prática deve ser feita de um modo muito suave e não-violento. Não deve haver nenhuma luta, porque quando você luta, você cria danos dentro de si.
A prática budista está baseada na percepção [insight] da não-dualidade: você é amor, você é consciência, mas também é aquela energia de hábito que está dentro de você. Meditar não pretende transformá-lo em um campo de batalha, o certo lutando contra o errado, o positivo lutando contra o negativo. Esta não é uma atitude budista. Assim é que, baseado na percepção da não-dualidade, a prática deveria ser não-violenta. A consciência que contêm a raiva é como uma mãe que abraça seu filho, a irmã maior que abraça a irmã mais jovem. O abraço sempre traz um efeito positivo. Você pode trazer alívio, e pode fazer a energia negativa perder um pouco de sua força, apenas a contendo.
(Thay desenha em um quadro) Este círculo representa nossa consciência, e a parte mais baixa é chamada de consciência armazenadora. A parte superior é chamada a consciência mental. Na base da consciência de armazenadora, são armazenados muitos tipos de sementes: a semente do amor, a semente da compreensão, a semente do perdão, a semente do desespero, a semente da raiva - positiva e negativa -, elas são todas mantidas e preservadas na consciência de armazenadora. E toda vez que uma destas sementes é tocada ou regada, se manifestará na consciência mental superior como uma zona de energia, "energia número um." Criando seu medo, seu ciúme, seu desespero, sua depressão.
Um praticante é alguém que tem o direito de sofrer, mas que não tem o direito de não praticar. Pessoas que não são praticantes permitem que sua a dor, desgosto e angústia os subjuguem, os pressionem para dizer e fazer coisas que não desejam. Nós, que nos consideramos praticantes, temos o direito de sofrer como todo mundo, mas nós não temos o direito de não praticar. Então, nós temos que fazer algo, buscar coisas positivas dentro de nossos corpos e nossa consciência, tomar controle de nossas situações. É normal sofrer, é normal ficar bravo, mas não é normal se permitir ser engolfado pelo sofrimento. Nós sabemos que em nossos corpos e nossa consciência existem elementos positivos que nós podemos buscar em nosso favor. Nós temos que mobilizar estes elementos positivos para proteger a nós mesmos e cuidar das coisas negativas que estão se manifestando em nós.
O que normalmente fazemos é chamar a semente da consciência para vir à tona e também se manifestar como uma zona de energia, que nós chamaremos "energia número dois." A energia de consciência tem a capacidade de reconhecer, conter e aliviar o sofrimento, acalmando-o e também o transformando. Em cada um de nós existe a semente da consciência, mas se nós não praticarmos a arte de viver atentos, então aquela semente pode tornar-se muito pequena. Nós poderemos estar atentos, mas nossa consciência será muito pobre. Claro que, quando você dirige seu carro, você precisa de sua consciência. Uma quantia mínima de consciência é requerida para que você dirija, caso contrário você se envolveria em um acidente.
Nós sabemos que cada um de nós tem a capacidade de estar atento. Quando você opera uma máquina precisa de certa quantia de consciência, caso contrário acontecerá um acidente de trabalho. Em nosso relacionamento com outra pessoa, nós precisamos também de alguma quantia de consciência, caso contrário nós iremos prejudicar a relação. Nós sabemos que todos nós temos um pouco de energia de consciência, e esse é o tipo de energia que nós precisamos para cuidar de nossa dor e nosso desgosto.
Consciência é algo que todos nós podemos criar. Quando você bebe um pouco de água, e sabe que está bebendo água, isto é consciência. Nós chamamos isto de consciência de beber. Quando você inspira, e está atento que está inspirando, isso é consciência de respiração, e quando você caminha, e sabe que está caminhando, então isso é consciência de andar. Consciência de dirigir, consciência de cozinhar… vocês não precisam estar na sala de meditação para praticar a consciência. Você pode estar lá na cozinha, ou no jardim, e continuar cultivando a energia de consciência. Esta é a prática mais importante dentro de um centro de prática budista: você faz tudo atentamente, porque precisa muito desta energia, para sua transformação e cura. Você sabe que pode fazer isto, e o fará melhor se estiver envolvido por uma comunidade de irmãos e irmãs que estão fazendo as mesmas coisas que você. Sozinho você poderia esquecer, e poderia abandonar sua prática depois de alguns dias ou alguns meses. Mas se você vive permanentemente com uma Sangha, então será apoiado, e sua consciência ficará mais forte e mais forte diariamente, graças ao apoio da Sangha.
Para aqueles entre nós que praticam a consciência como uma arte de vivência diária, a semente de consciência guardada em nossa consciência armazenadora fica muito forte; e em qualquer momento que nós a tocamos, a chamamos para nos ajudar, então ela estará pronta para nós, como a mãe que, embora esteja trabalhando na cozinha, sempre está pronta para atender aos gritos do bebê toda vez que ele chorar. Assim nossa consciência está lá de forma que nós a possamos reconhecer, porque a consciência é definida principalmente como a energia que nos ajuda a saber o que está acontecendo no momento presente.
Eu bebo água, eu sei que estou bebendo a água. Bebendo a água é o que está acontecendo. Eu caminho atentamente, piso atentamente, e sei que estou fazendo passos atentos. Consciência de andar: Eu estou consciente que meu caminhar está acontecendo, e eu me concentro no andar. A consciência tem o poder de trazer concentração. Quando você bebe atentamente sua água, você se concentra em seu ato de beber. Se você se concentra, a vida se aprofunda, e você é capaz de adquirir mais alegria e estabilidade apenas por beber sua água atentamente. Você pode dirigir atentamente, você pode cortar atentamente cenouras, e quando faz atentamente tais coisas, sente que você está concentrado. Você vive cada momento de sua vida diária profundamente, e todos nós sabemos que a consciência e a concentração produzirão o insight que nós precisamos.
Se você não pára, se você não fica atento, se você não se concentra, então não há nenhuma chance de você adquirir tal "insight". Meditação budista significa parar, se acalmar, se concentrar, e dirigir seu olhar profundamente no que ocorre no aqui e agora. O primeiro elemento da meditação budista é o parar, e o segundo elemento é olhar profundamente. Parar significa não correr mais, estar atento ao que está acontecendo no aqui e agora. A consciência lhe permite estar no aqui e agora, com o corpo e mente unidos. Em nossas vidas diárias acontece muito freqüentemente que nosso corpo esteja lá, mas nossa mente está em outro lugar, no passado ou no futuro, ou presa de nossos projetos, nossos medos, nossas raivas. A consciência nos ajuda a trazer a mente de volta ao corpo, e quando faz isto você subitamente fica verdadeiramente presente no aqui e agora. Assim você pode definir a consciência como a energia que lhe ajuda a estar completamente presente.
Se você está completamente presente, com sua mente e corpo verdadeiramente unidos, você imediatamente fica totalmente presente e totalmente vivo. É aquela energia que lhe ajuda a estar vivo e presente. Você pode trazer consciência a si de muitas formas: por apenas respirar, caminhar, olhar, cozinhar, por tomar café da manhã… pois você pode usar o ato de tomar café da manhã como um exercício para unir corpo e mente.
Eu gostaria de definir a consciência como a prática de estar ali, corpo e mente unidos. A prática de estar totalmente presente, a prática de estar totalmente vivo. Você tem um encontro com a vida - e você não deveria perdê-lo. O tempo e o espaço de seu encontro são o aqui e o agora. Se você perde o momento presente, se você perde o aqui e o agora, você perde seu encontro com a vida, o que é muito sério. Assim aprender a voltar para o momento presente, estar completamente presente, estar completamente vivo, é o início da meditação.
Uma vez estando ali, uma outra coisa também está lá: Vida. Se você não estiver disponível para a vida, então a vida não estará disponível para você. Quando você está com um grupo de pessoas e contempla a lua ascendente, você precisa estar atento, você precisa estar no aqui e agora. Se você se deixar perder no passado ou no futuro, a lua cheia não será para você, mas para as outras pessoas que estão ali. Assim, se você sabe praticar a respiração atenta, você pode trazer sua mente de volta a seu corpo, e pode se fazer plenamente presente e plenamente vivo, e então a lua existirá para você. Por isso eu digo que se você estiver presente, uma outra coisa estará lá também: Vida.
A Consciência ajuda-o a realizar o ato de parar. Você deixa de correr porque realmente está ali. Você deixa de ser envolvido por sua energia de hábito, por seu esquecimento. E quando você toca algo bonito, com consciência, este algo se torna um elemento refrescante e curativo para você. Com consciência nós podemos tocar as coisas positivas, e também podemos tocar as coisas negativas. Se há alegria, a consciência nos permite reconhecer isto como alegria, e a consciência nos ajuda usufruir desta alegria e a permite crescer, e nos ajuda no trabalho de transformação e cura.
Há elementos dentro de nós que não estão errados. Há elementos ao redor de nós que não estão errados. E a primeira tarefa dos meditadores é serem capazes de tocar e reconhecer estes elementos positivos, porque eles têm o poder de nutrir e curar. Se você é um psicoterapeuta, poderia gostar de tentar isto com seus pacientes: em vez de falar sobre o que está errado, você os convida a falar sobre o que não está errado com eles e ao seu redor. Às vezes nós estamos muito fracos ou muito doentes para lidar apenas com nossos elementos negativos. Antes que uma cirurgia seja feita, um doutor examinará o paciente para ver se aquela pessoa tem bastante força para resistir à cirurgia. Se a pessoa é muito fraca, o doutor tentará, através da nutrição e outros meios, a ajudar o corpo do paciente a se fortalecer antes da operação ser feita. Nós fazemos a mesma coisa aqui. Se uma pessoa sofre muito, nós não deveríamos começar falando sobre o que está errado.
Nosso corpo e nossa consciência são como um jardim: pode haver várias árvores morrendo naquele jardim, mas isso não significa que o jardim inteiro esteja morto. Talvez a maioria das árvores ainda seja vigorosa, bonita. Por isso que você não deveria permitir ao negativo lhe subjugar, porque ainda há muitas coisas que estão bem em nossos corpos e nossa consciência. O terapeuta deveria ajudar seu paciente a desenvolver a habilidade de identificar estes elementos positivos dentro de si, e ao seu redor. E o terapeuta, claro está, tem que poder fazer isso por ele ou ela, e se tornar um co-participante. O terapeuta pode convidar seu paciente para uma sessão de meditação andando, e durante esta sessão ele tentará pôr o paciente em contato com os elementos positivos dentro dele ou ao redor dele. Na prática budista isto é muito importante. Consciência é a energia que nós geramos, e primordialmente nós queremos esta energia para nos ajudar a estar em contato com coisas positivas - alegria e felicidade.
(Traduzido por Cláudio Miklos da Discussão de Dharma de Thich Nhat Hanh em Plum Village em 6 de agosto de 1998)
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Religião no Mundo de Hoje
Muitos ensinamentos, muitos caminhos — Encontrar a verdadeira satisfação não depende de seguir qualquer religião específica ou manter uma crença em particular. Contudo, muitas pessoas buscam a satisfação na prática religiosa ou na fé. Quando permanecemos isolados uns dos outros, às vezes ficamos com imagens distorcidas das tradições ou crenças diferentes daquelas que defendemos; em outras palavras, podemos acreditar equivocadamente que nossa religião é de alguma maneira a única válida. Na verdade, antes de deixar o Tibete e ter contato mais próximo com outras religiões e outros líderes religiosos, eu mesmo tinha idéias! Mas enfim entendi que todas as tradições têm grande potencial e podem desempenhar uma função muito importante no benefício da humanidade. Todas as religiões do mundo contêm ferramentas para lidar com nossa aspiração básica de superar o sofrimento e alcançar a felicidade. Neste capítulo, vamos examinar esses instrumentos.
Algumas religiões possuem sofisticadas análises filosóficas; outras extensos ensinamentos éticos; outras dão grande ênfase à fé. Entretanto, se observarmos os ensinamentos das grandes tradições de fé do mundo, iremos discernir duas dimensões principais da religião. Uma é a que poderia ser chamada dimensão metafísica ou filosófica, que explica por que somos do jeito que somos e por que são prescritas certas práticas religiosas. A segunda dimensão refere-se à prática da moralidade ou disciplina ética. Pode-se dizer que os ensinamentos éticos de uma tradição de fé são as conclusões amparadas e validadas pelo processo de pensamento metafísico ou filosófico. Embora as religiões do mundo tenham grandes divergências em termos de metafísica e filosofia, as conclusões a que chegam essas filosofias divergentes – ou seja, seus ensinamentos éticos – mostram um grau elevado de convergência. Nesse sentido, podemos dizer que, a despeito de quaisquer explicações metafísicas que as tradições religiosas utilizem, todas chegam a conclusões similares. De uma forma ou de outra, as filosofias de todas as religiões do mundo enfatizam o amor, a compaixão, a tolerância, o perdão e a importância da autodisciplina. Por meio do compartilhamento, do respeito e da comunicação interpessoal e intercrenças, é possível aprender a estimar as valiosas qualidades ensinadas por todas as religiões, e os instrumentos pelos quais todas elas podem beneficiar a humanidade.
Dentro de cada caminho, encontramos pessoas verdadeiramente dedicadas ao bem-estar dos outros, movidas por uma profunda noção de compaixão e amor. Ao longo das últimas décadas conheci um bom número de pessoas de tradições diversas – cristãos, hindus, muçulmanos e judeus. E em cada tradição existem pessoas maravilhosas, afetuosas, sensíveis - pessoas como Madre Teresa, que dedicou toda sua vida ao bem-estar dos mais pobres entre os pobres do mundo, e o Doutor Martin Luther King Jr., que dedicou sua vida à luta pacífica pela igualdade. É evidente que todas as tradições têm o poder de trazer à tona o melhor do potencial humano. No entanto, diferentes tradições usam diferentes abordagens.
Agora poderíamos perguntar: “Por que é assim? Por que existe tanta diversidade metafísica e filosófica entre as religiões do mundo?” Tal diversidade pode ser encontrada não só entre diferentes religiões, mas também dentro das religiões. Mesmo no Budismo – nos ensinamentos do próprio Buda Shakyamuni – ela existe. Nos ensinamentos mais filosóficos do Buda, verificamos que essa diversidade é bastante pronunciada; em alguns casos, as instruções parecem até se contradizer!
Creio que isso aponta para uma das mais importantes verdades a respeito dos ensinamentos espirituais: eles devem ser adequados ao indivíduo que está sendo ensinado. O Buda reconheceu entre seus seguidores diversos tipos de índoles mentais, inclinações mentais, inclinações espirituais e interesses, e viu que, para se adequar a essa diversidade, precisaria ensinar de forma diferenciada nos diferentes contextos. Não importa quanto um ensinamento específico possa ser poderoso ou quanto um ponto de vista filosófico seja “correto”: se não for adequado ao indivíduo que o ouve, não tem valor. Assim sendo, um professor espiritual hábil julgará a pertinência de um determinado ensinamento para um determinado indivíduo e ensinará de acordo.
Podemos traçar uma analogia com o uso dos remédios. Antibióticos, por exemplo, são imensamente poderosos; são valiosos no tratamento de uma ampla variedade de doenças, mas são inúteis na cura de uma perna quebrada. Uma perna quebrada deve ser colocada adequadamente no gesso. Além disso, mesmo nos casos em que a utilização dos antibióticos é de fato imprescindível, se um médico receitar para uma criança a mesma dose que daria para um adulto, a criança pode morrer!
Do mesmo modo, podemos ver que o próprio Buda – por ter reconhecido a diversidade de índoles mentais, interesses e inclinações espirituais de seus seguidores – deu ensinamentos de maneira diferenciada. Observando todas as religiões do mundo sob essa luz, sinto uma profunda convicção de que todas as tradições são benéficas, cada uma delas servindo de forma única às necessidades de seus seguidores.
Vamos olhar para as semelhanças de outra maneira. Nem todas as religiões postulam a existência de Deus, de um Criador; mas aquelas que o fazem destacam que o devoto deve amar a Deus de todo coração. Como poderíamos determinar se alguém ama a Deus de forma sincera? Com certeza, examinaríamos o comportamento e a atitude dessa pessoa em relação aos demais seres humanos, em relação ao restante da criação de Deus. Se alguém mostra amor e compaixão verdadeiros em relação aos irmãos e irmãs humanos, e em relação à própria Terra, acredito que podemos ter certeza de que essa pessoa demonstra verdadeiro amor por Deus. É claro que quando alguém realmente respeita a mensagem de Deus, estende o amor de Deus pela humanidade. No entanto, creio que é altamente questionável a fé de alguém que professa a crença em Deus, mas não mostra amor ou compaixão pelos outros seres humanos. Quando analisamos dessa forma, vemos que a fé genuína em Deus é um meio poderoso para se desenvolver as qualidades humanas positivas de amor e compaixão.
Vamos nos deter em outro ponto divergente das religiões mundiais: a crença em vidas passadas ou futuras. Nem todas as religiões afirmam a existência dessas coisas. Algumas, como o Cristianismo, admitem uma próxima vida, talvez no céu ou no inferno, mas não uma vida anterior. De acordo com a visão cristã, esta vida, a vida presente, foi criada diretamente por Deus. Posso muito bem imaginar que acreditar sinceramente nisso proporciona um sentimento de grande intimidade com Deus. Com certeza, ao estarmos cientes de que nossas vidas são criação de Deus, desenvolvemos uma profunda reverência por Deus e o desejo de viver inteiramente de acordo com seus propósitos, pondo em prática nosso potencial humano mais elevado.
Outras religiões ou pessoas podem enfatizar que somos todos responsáveis por tudo o que criamos em nossa vida. Esse tipo de fé também pode ser muito eficiente para ajudar a pôr em prática nosso potencial para a bondade, pois exige que as pessoas assumam total responsabilidade por suas vidas, com todas as conseqüências recaindo sobre seus ombros. Pessoas que pensam assim de modo verdadeiro vão se tornar mais disciplinadas e assumir inteira responsabilidade em praticar a compaixão e o amor. Portanto, embora a abordagem seja diferente, o resultado é mais ou menos o mesmo.
Manter sua própria tradição — Quando reflito dessa forma, minha admiração pelas grandes tradições espirituais do mundo aumenta, e posso estimar com intensidade o valor delas. É evidente que essas religiões atenderam às necessidades espirituais de milhões de pessoas no passado, continuam a fazê-lo no presente, e continuarão no futuro. Percebendo isso, encorajo as pessoas a manter sua tradição espiritual, mesmo que se interessem em aprender sobre outras, como o Budismo. Trocar de religião é um assunto sério, e não deve ser tratado levianamente. Uma vez que as diferentes tradições religiosas evoluíram de acordo com contextos históricos, culturais e sociais específicos, uma tradição pode ser mais adequada para uma determinada pessoa em um ambiente específico. Somente a pessoa sabe qual religião é mais conveniente para ela. Assim, é vital não fazer proselitismo, propagando apenas a sua própria religião, afirmando que ela é a melhor ou a que está certa.
Nesse sentido, quando ministro ensinamentos budistas para ocidentais com outra formação religiosa, em geral ma sinto um pouco apreensivo. Não é meu desejo propagar o Budismo. Ao mesmo tempo, é muito natural que, entre milhões de pessoas, algumas sintam que a abordagem budista é a mais adequada, a mais efetiva para elas. E, mesmo que uma pessoa se simpatize e chegue ao ponto de considerar a adoção dos ensinamentos budistas, ainda é muito importante examinar os ensinamentos e a decisão com cuidado. Só depois de pensar muito, refletindo e examinando, pode-se chegar à conclusão de que a abordagem budista é, no seu caso, a mais correta e efetiva.
Não obstante, acho que é melhor ter algum tipo de fé, algum tipo de crença arraigada, do que não ter nenhuma. E acredito firmemente que alguém que pensa apenas nesta vida e no ganho mundano simplesmente não consegue obter satisfação duradoura. Esse tipo de abordagem puramente materialista não trará felicidade que perdure. Quando jovem e em pleno gozo das faculdades físicas e mentais, uma pessoa pode se sentir completamente auto-suficiente e no controle, e concluir que não é necessário ter fé ou entendimentos profundos. Mas, com o tempo, as situações mudam; as pessoas ficam doentes, envelhecem, morrem. Esses fatos inevitáveis; ou talvez alguma tragédia inesperada que o dinheiro não consiga remediar, podem ressaltar a limitação dessa visão mundana. Em tais casos, uma abordagem espiritual, como a budista, pode se tornar a mais adequada.
Compartilhar as tradições — Neste mundo diversificado, com inúmeras tradições religiosas, é de grande valor para os praticantes de diferentes religiões cultivar um respeito genuíno, baseado no diálogo, pelas tradições dos outros. No começo desse diálogo, é importante que todos os participantes reconheçam de forma plena não apenas as muitas áreas de convergência entre as tradições de fé, mas, mais crucialmente, que reconheçam e respeitem as diversidades entre as tradições. Além disso, devemos analisar as causas e condições específicas que dão origem às diferentes tradições de fé – os fatores históricos, culturais, sociológicos, até pessoais, que afetam a evolução de uma religião. Em certo sentido, essas reflexões nos ajudam a perceber por que uma determinada religião surgiu. Então, tendo esclarecido as diferenças e as origens, olhamos as religiões de uma nova perspectiva, cientes de que filosofias e práticas religiosas divergentes podem ocasionar resultados similares. Ao entrar no diálogo intercrenças dessa maneira, desenvolvemos respeito e admiração verdadeiros pelas tradições religiosas dos outros.
Na verdade, existem dois tipos de diálogos intercrenças: os que acontecem em um nível puramente acadêmico, interessados em primeiro lugar nas diferenças e semelhanças intelectuais, e os que ocorrem entre praticantes autênticos de diversas tradições. Na minha experiência pessoal, esse último tipo de diálogo tem sido de grande ajuda no engrandecimento de minha valorização das outras tradições.
O diálogo intercrenças é um dos muitos modos pelos quais podemos compartilhar as tradições uns dos outros. Também é possível fazer isso realizando peregrinações e jornadas a lugares sagrados de outras tradições – e, se possível, rezando ou praticando juntos, ou participando de meditação silenciosa em grupo. Sempre que tenho oportunidade, faço visitas como peregrino aos locais sagrados de outras tradições. Embuído desse espírito, fui aos templos de Jerusalém, ao santuário de Lourdes na França e a vários lugares sagrados da Índia.
Muitas religiões advogam a paz mundial e a harmonia global. Por conseqüência, outra maneira pela qual podemos valorizar as outras religiões é vendo os líderes religiosos reunidos e os ouvindo expressar os mesmos valores, no mesmo palanque, onde estão juntos.
Desmond Tutu, o bispo da África do Sul, apontou-me uma maneira adicional pela qual podemos compartilhar a força religiosa uns dos outros: sempre que ocorre um desastre ou alguma grande tragédia no mundo, pessoas de diferentes religiões podem se unir para ajudar os que estão sofrendo, mostrando, desse modo, o coração de cada religião em ação. Creio que essa é uma grande idéia; além disso, em termos práticos, é uma oportunidade maravilhosa para pessoas de diversas tradições se conhecerem. Prometi ao bispo Tutu que nas futuras discussões sobre compartilhamento intercrenças eu mencionaria essa idéia – e agora estou cumprindo minha promessa!
Assim, existem campos para se promover o diálogo e a harmonia entre as religiões, e existem métodos. Estabelecer e manter essa harmonia é de vital importância porque sem isso as pessoas podem facilmente criar desavenças umas com as outras. No pior dos casos, surgem conflitos e hostilidade, levando ao derramamento de sangue e à guerra. Muitas vezes, algum tipo de diferença ou intolerância religiosa está na raiz de muitos desses conflitos. No entanto, supõe-se que a religião arrefeça a hostilidade, atenue conflitos e traga paz. É trágico a própria religião tornar-se outro motivo para a criação de discórdia. Quando isso acontece, a religião não tem valor para a humanidade – de fato, é prejudicial. Contudo, não creio que devamos abolir a religião; ela ainda pode ser um instrumento para o desenvolvimento da paz entre as pessoas no mundo.
Além disso, embora possamos ressaltar importantes avanços na tecnologia, e até no que chamamos “qualidade de vida”, ainda temos determinadas dificuldades que a tecnologia e o dinheiro não podem resolver: sentimos ansiedade, medo, ira, tristeza por perda ou separação. Somadas a essas dificuldades, temos muitas queixas cotidianas – eu com certeza tenho, e imagino que vocês também.
Esses são determinados aspectos fundamentais do ser humano que permaneceram inalterados por milhares, talvez milhões de anos, e serão superados somente através da paz mental. De um jeito ou de outro, todas as religiões abordam essas questões. Assim, mesmo no século XXI, as várias tradições religiosas ainda possuem um objetivo muito importante – proporcionar paz mental a seus seguidores.
Precisamos da religião a fim de desenvolver tanto a paz interior quanto a paz entre os ovos do mundo; esse é o papel essencial da religião hoje em dia. E, na busca desse objetivo, torna-se imprescindível a harmonia entre as diferentes tradições.
Aprender com outras tradições — Embora não recomende que uma pessoa abandone sua religião original, creio que o seguidor de uma tradição pode incorporar em sua prática certos métodos de transformação espiritual encontradas em outras tradições. Alguns de meus amigos cristãos, por exemplo, embora permaneçam ligados de maneira firme à sua própria tradição, incorporam antigos métodos indianos para o cultivo da unidirecionalidade da mente por meio da concentração meditativa. Também tomam emprestadas algumas ferramentas do Budismo para treinar a mente durante a meditação, visualizações relacionadas ao desenvolvimento da compaixão, e práticas que ajudam na amplitude da paciência. Esses cristãos devotos, ao mesmo tempo em que permanecem solidamente ligados à sua própria tradição espiritual, adotam determinados aspectos e métodos de outras religiões. Creio que isso é benéfico para eles, e sábio.
Essa adoção também pode funcionar na via inversa. Os budistas podem incorporar elementos do Cristianismo em sua prática – por exemplo, a tradição do serviço comunitário. Na tradição cristã, monges e freiras têm uma longa história de trabalho social, em particular nos campos da saúde e educação. O Budismo está muito do Cristianismo no fornecimento de serviço para a grande comunidade humana por meio do trabalho social. De fato, um de meus amigos alemães, também budista, observou que, ao longo dos últimos 40 anos, embora muitos mosteiros tibetanos de vulto tenham sido erguidos no Nepal, pouquíssimos hospitais ou escolas foram construídos por esses monastérios. Meu amigo comentou que, se fossem mosteiros cristãos, junto com o aumento do número deles, com certeza teria havido também um aumento no número de escolas e postos de saúde. Um budista não pode manifestar nada em resposta a uma afirmação dessas a não ser inteira concordância.
Os budistas podem aprender muito com o serviço comunitário cristão. Entretanto, alguns de meus amigos cristãos manifestam enorme interesse pela filosofia budista da vacuidade. Para esses irmãos cristãos, observei que o ensinamento da vacuidade – o ensinamento de que todas as coisas são destituídas de qualquer existência absoluta, independente – é exclusivo do Budismo, e portanto, para um cristão praticante seria sábio não se aprofundar demais nesse ensinamento. O motivo para essa cautela é que, se alguém começa a se aprofundar intensamente no ensinamento budista da vacuidade e a segui-lo com fidelidade, pode destruir a fé em um criador – um ser absoluto, independente, eterno, que, em resumo, não é vazio.
Muitas pessoas manifestam sincera reverência tanto pelo Budismo quanto pelo Cristianismo, e especificamente pelos ensinamentos do Buda Shakyamuni e de Jesus Cristo. Sem dúvida, é de grande valor desenvolver um respeito profundo pelos professores e ensinamentos de todas as religiões do mundo, e em um estágio inicial dá para ser, por exemplo, praticante budista e cristão. Mas, se a pessoa optar em seguir um caminho em grande profundeza, será necessário abraçar um caminho espiritual junto com sua metafísica subjacente.
Podemos traçar aqui uma analogia com a educação. Começamos com uma educação em bases amplas; da escola primária até talvez a faculdade, quase todas as pessoas inicialmente estudam um currículo básico semelhante. Mas, se desejarmos seguir uma especialização, quem sabe um doutorado ou alguma especialidade técnica, só podemos fazê-lo em um campo específico. Desse modo, do ponto de vista do praticante espiritual individual, à medida que se aprofunda no caminho espiritual, a prática de uma religião e uma verdade torna-se importante. Assim, ao mesmo tempo em que é fundamental toda a sociedade humana acolher a realidade de muitos caminhos e muitas verdades, para uma pessoa pode ser melhor seguir um caminho e uma verdade.
(Texto extraído da obra A Essência do Sutra do Coração, Editora Gaia, 2006.)
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Quem sou eu
- Sandro da Costa Rodrigues
- Aprendo a cada dia um pouquinho a mais do que sou, de quem sou, do que sonho, do que amo, de quem amo! Apenas sei que passo a ser o que Sou a cada respiração, a cada meditação, a cada comunhão com todos os seres que comigo partilham a experiência do Mistério, do Existir, do Ser, do descortinar-se e do brindar o viver! É isto: Sou um Brindador da Vida!



