sábado, 14 de fevereiro de 2009



MEDITAÇÃO

O "paraíso portátil" ao alcance de todos

Nessa entrevista exclusiva ao informativo Cultura para Paz, o monge Naradananda, discípulo de Paramahansa Yogananda, explica os benefícios da meditação para o nosso dia-a-dia. Seu mestre, Paramahansa Yogananda, autor do livro Autobiografia de um Iogue – é considerado um dos maiores instrutores espirituais da atualidade e foi um dos primeiros mestres da Índia a trazer para o Ocidente as técnicas milenares da ciência da meditação.

Nascido em 1893, em Gorakhpur, no norte da Índia, Yogananda passou a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, onde escreveu extensivamente sobre a arte de viver em harmonia e onde fundou aSelf-Realization Fellowship, que tem a finalidade de disseminar e preservar a pureza e a exatidão dos seus ensinamentos para a posteridade. O monge Naradananda é membro da Ordem Monástica da Self-Realization Fellowship há mais de 35 anos e esteve recentemente em visita ao Brasil, dando palestras e iniciação emKriya Yoga, uma técnica científica e avançada de meditação.

Em sua opinião, qual é o motivo para o crescente interesse pelos ensinamentos de Paramahansa Yogananda?

Vejam como está o mundo hoje. Será que as pessoas são felizes? Estão satisfeitas? Estão seguras? Vejam como se encontra a economia! Vejam o que está acontecendo nestes dois últimos meses! Algumas pessoas perderam todos os seus bens.

Acho que as pessoas estão, cada vez mais, procurando algo diferente daquilo que os bens materiais podem lhes oferecer, porque se dão conta de que essas coisas não são suficientes para lhes fazer felizes!

Deparamo-nos com muitas coisas ruins, as absorvemos e elas impressionam nossa mente, causando bastante tensão. As pessoas não foram treinadas para lidar com esse tipo de situação. De um lado, há inteligência, há talento, mas, por outro, há demasiada pressão para desenvolver esses talentos. A pessoa se questiona: “Como posso ser feliz com tanta pressão? Preciso cuidar da minha família, quero ter uma carreira próspera, mas há muita pressão ao meu redor!”

Nos séculos passados, havia mais harmonia, mais calma, maior possibilidade de convivência com a natureza. Hoje em dia, a tendência é a de acumular muitas coisas externas para distrair nossa atenção e tirar nossa calma. Precisamos de uma “trégua”, precisamos relaxar. Estamos muito tensos. É por isso que as pessoas procuram algo que lhes proporcione verdadeira paz, que afaste a tensão, que possa trazer realização perene. E temos, para isso, a meditação ao nosso alcance.

Paramahansa Yogananda previu que isto ocorreria: toda essa preocupação que estamos vivendo atualmente. Então, por isso, penso que a Ioga e a meditação oferecem alívio às coisas que estão ocorrendo.


Qual é o objetivo principal da Self-Realization Fellowship?

 

O objetivo principal da Self-Realization Fellowship, estabelecido pelo nosso fundador, Paramahansa Yogananda, é disseminar, no mundo inteiro, os ensinamentos para o aprendizado da meditação. Só assim poderemos compreender que somos mais do que este corpo físico, mais do que a mente, que temos uma centelha divina residindo em nosso corpo, a alma, que faz com que possamos ter controle sobre o nosso corpo.

O objetivo principal da meditação é ter a experiência de Deus. Todos nós podemos descobrir isso se fizermos o esforço, mesmo neste mundo tão agitado. Iremos encontrar dentro de nós o amor, a alegria, a paz, a calma e a segurança. Paramahansa Yogananda chamou isso de “paraíso portátil”. As técnicas de meditação que ele nos ensinou permitem que possamos nos interiorizar e sentir que somos almas, que somos filhos de Deus e que temos o direito, como têm os filhos de quaisquer pais, de receber Dele essa atenção, ou seja, de poder sentir a presença de Deus aqui e agora.

Paramahansa Yogananda nos ensinou, no entanto, que a meditação é metade da batalha e que a outra parte é aprender a amar a Deus. Ou seja, desenvolver a devoção, que nos motiva a percebermos que Deus é amor e que o nosso maior objetivo é o amor. Queremos o amor e queremos ser amados. Deus é esse amor supremo. Então, assim que tivermos isso, estaremos plenamente satisfeitos.

Além das técnicas, Paramahansa Yogananda nos deu outro método: o do caminho equilibrado. E como é esse princípio? Como podemos conduzir nossas vidas em meio a tantas circunstâncias diferentes? Podemos começar através da alimentação, do exercício físico e da redução da tensão. Experimentamos tensão física, mental, psicológica – muitas coisas que precisam ser eliminadas. Yogananda nos deixou ensinamentos para nos ajudar a ser felizes. E é isto que queremos: ser felizes. Mas queremos ser eternamente felizes. Esta é a chave. Podemos ter vestígios de felicidade, mas ela não é permanente.

Precisamos ter o conhecimento mais profundo de nós mesmos como almas e perceber que Deus é quem nos dará essa felicidade duradoura – uma felicidade que ficará conosco não apenas nesta vida, mas em outras também.

O que faz com que a Kriya Yoga seja considerada uma técnica de meditação avançada?

No livro Autobiografia de um Iogue, Paramahansa Yogananda escreveu um capítulo sobre a Kriya Yoga, que é a técnica de meditação mais elevada que ele nos deixou. Essa é uma técnica psicofisiológica, descoberta na Índia, que lida tanto com a mente quanto com as correntes de energia. Esse tipo de técnica é conhecida como pranayama.Prana é a energia que desempenha as diversas funções vitais no corpo; yamasignifica “controle”. A Kriya Yogaobjetiva o controle dessa força vital. É uma avançada técnica de meditação que nos permite acelerar a nossa evolução espiritual.

Paramahansa Yogananda diz que normalmente levam-se anos para se obter apenas um pequeno desenvolvimento ou avanço espiritual. Esse “avanço” se encontra inter-relacionado à coluna vertebral, onde existem diversos centros de energia vital que executam diferentes funções no corpo. Com a Kriya Yoga nós aprendemos a controlar certas correntes de energia e fazer com que elas circulem em volta desses centros através de métodos que têm essa finalidade. Por meio dessa prática, aprendemos a acalmar naturalmente a nossa respiração, a reduzir os batimentos cardíacos – o que, essencialmente, fazemos no sono. Quando dormimos, a energia retorna à coluna vertebral e ao cérebro, mas isto é feito inconscientemente. Por que nos sentimos descansados quando dormimos? Porque, inconscientemente, entramos em contato com nossa verdadeira natureza. Mas, também podemos fazer isso conscientemente, pela prática da Kriya Yoga.

Esse é o objetivo principal dessa técnica, praticando-a regularmente e de forma consciente, somos capazes de experimentar mais a paz e a alegria que sentimos quando dormimos. Quando dormimos profundamente, sabemos, ao acordar, que tivemos um sono tranqüilo porque nos sentimos revigorados. Dizemos que é porque dormimos bem, mas não sabemos o que aconteceu. Com a meditação, vocês realizam isso com a consciência do que está acontecendo.

Como podem a prática da Ioga e dos ensinamentos da SRF contribuir para a paz mundial?

A alma, nossa verdadeira natureza, faz parte de nosso ser, no seu estado natural. A paz, a calma, a serenidade são o oposto da agitação, das lutas que estão em conflito com a alma e que imperam no mundo. Obviamente, há países, religiões e vários fatores diferentes que contribuem para esses conflitos. Quando, porém, por meio da meditação começamos a perceber que existe nas outras pessoas algo – uma essência – que “se parece comigo” e quando procuramos saberquem elas realmente são, entramos em contato com aquele verdadeiro ser que brilha dentro de cada um de nós. Quando compreendemos isso, há uma manifestação natural de paz, de calma e percebemos as pessoas como irmãos ou irmãs, porque podemos sentir que somos almas como elas próprias são. Não enxergamos apenas um país distinto, com suas diferenças sócio-políticas, ou uma religião em particular, com seus rituais ou dogmas; podemos ver e aceitar a todos num contexto muito mais amplo, numa expansão de consciência.

Quando meditamos, isto realmente acontece. A meditação expande a consciência humana tornando-a divina. Paramahansa Yogananda fala disso naAutobiografia de um Iogue. Ele explica que já estamos na era atômica e fala dessa energia em particular, de como ela pode ser canalizada de forma construtiva. A meditação é o meio de utilizarmos essa energia para o nosso benefício e para o bem de todos.

Como conheceu a Self-Realization Fellowship e por que resolveu tornar-se monge?

Nasci no centro dos Estados Unidos da América, exatamente no sul de Chicago, em uma fazenda. Cresci em meio à natureza. Como todos os jovens, fui à faculdade e me formei. Nos anos 1970, havia um grande interesse pela Ioga. Dei-me conta que, apesar de ter um diploma de bacharel, não me sentia totalmente feliz. Tinha uma carreira, queria ter dinheiro, mas também pensava: “preciso viver”. Já tinha lido algo sobre a Ioga, quando, ao ler uma revista, vi um anúncio sobre a Autobiografia de um Iogue e pensei: “Isto parece interessante.” Encomendei o livro e três dias depois, já tinha acabado de ler.

Percebi que na capa do livro havia uma nota dizendo que era possível solicitar lições para aprender a meditação. Parecia como um barco salva-vida. Era aquilo que precisava e queria. Mas, ao mesmo tempo, sabia que Paramahansa Yogananda era um monge e tinha lido um pouco sobre a sua ordem monástica. Podem chamar isto de “impulso” – porém, havia dentro de mim, um sentimento muito forte, que me dizia que não poderia realmente ser feliz a menos que fizesse aquilo 100%; não poderia ser 50%; não poderia ser 75%. Precisava fazer aquilo 100%. Pode parecer engraçado, mas quando escrevi à Self-Realization Fellowship para pedir as lições, disse no segundo parágrafo: “A propósito, gostaria de ser monge!”

Muito cortesmente, responderam: “Recomendamos, mas, antes de qualquer coisa, deve começar a praticar as lições.” Levou mais ou menos três anos antes de conseguir entrar no ashram. Mas mantive o desejo. E não me arrependo!

O senhor mora num ashram? Como é o cotidiano da comunidade?

Moro atualmente em um ashram que é um dos mais novos da SRF, fundado em 1980, chamado Hidden Valley. Está situado no leste da Califórnia, perto de San Diego e Encinitas. É um ashram para homens que desejam experimentar a vida monástica, sem precisar assumir esse compromisso. É também um retiro espiritual, onde as pessoas podem vir passar os finais de semana, ou ficar até por três semanas.

ashram fica no interior, longe da cidade, na natureza; é muito sossegado. Sou muito feliz. Estou de volta aos meus dias na fazenda, quando era criança.

Como é a rotina diária no ashram?

Um dia típico no ashram é assim: acordamos aproximadamente às 5:30h da manhã. Realizamos uma meditação individual e depois uma meditação em grupo. Após o café da manhã, iniciamos as tarefas. Como moramos em uma fazenda, há muitas tarefas típicas de qualquer estabelecimento ligado à agricultura como, por exemplo, cuidar de árvores, das plantas, dos jardins, etc. Temos também jardins para meditação, dos quais cuidamos, eliminando as ervas daninhas, podando arbustos, plantando flores, etc. Como dispomos de uma grande área, alguns cuidam também da manutenção dos edifícios e do conserto de carros, tratores e ferramentas.

Alguns realizam tarefas na cozinha. Eu trabalho no escritório, coordenando as tarefas administrativas deste ashram em particular. Dentro de nossa rotina monástica, estão incluídos aconselhamento aos visitantes e residentes, ao ar livre. Ao meio dia, praticamos uma meditação em grupo e depois almoçamos. Voltamos às nossas tarefas até às 16:30h, quando temos um período de recreação onde jogamos vôlei, praticamos hatha yoga ou qualquer outra atividade física. O ashram oferece muito espaço ao ar livre, onde podemos caminhar, correr e fazer diversas coisas em conexão com a natureza. No final da tarde, após um jantar leve, realizamos novamente uma meditação em grupo, seguido de um período para estudo e meditação pessoal, antes de nos recolhermos.

Nos finais de semana, temos serviços de meditação com duração mais longa. Tudo isso proporciona muito equilíbrio. Procuramos praticar o silêncio o maior tempo possível – não apenas silêncio pelo silêncio em si, mas praticar o silêncio como fazia o místico católico do século XVII Irmão Lourenço – isto é, falar com Deus interiormente, praticando a presença Dele em nossas vidas. Isto nos ajuda muito.

Entrevista exclusiva fornecida ao Informativo Cultura para a Paz - Omnisciência, durante a visita monástica da Self-Realization Fellowship ao Brasil, em outubro de 2008. Pede-se a citação da fonte para a reprodução dessa entrevista.

Conheça os grupos de meditação e retiros da Self-Realization Fellowship no Brasil:

http://www.selfrealizationfellowship.com/temples/index.html




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Aprendo a cada dia um pouquinho a mais do que sou, de quem sou, do que sonho, do que amo, de quem amo! Apenas sei que passo a ser o que Sou a cada respiração, a cada meditação, a cada comunhão com todos os seres que comigo partilham a experiência do Mistério, do Existir, do Ser, do descortinar-se e do brindar o viver! É isto: Sou um Brindador da Vida!