
BABAJI: O MESTRE DOS MESTRES
Dizem que ele permanece vivo há séculos, orientando pessoalmente grandes mestres e profetas e inspirando anonimamente as pessoas comuns em seu lento processo evolutivo. Sua missão: ajudar a humanidade a realizar seu imenso potencial latente.
Por José Tadeu Arantes |
Vivemos, na maior parte do tempo, uma existência limitada. Seja na vida profissional, seja na vida pessoal, nosso desempenho fica, quase sempre, muito abaixo do verdadeiro potencial humano. Duas forças poderosas contribuem para isso: o senso comum e o hábito. O senso comum nos faz acreditar que somos muito menos do que realmente somos. O hábito nos faz perpetuar, pela repetição, essa falsa imagem que temos de nós mesmos. Todos já ouvimos histórias de pessoas que, num momento de crise, em situações muitas vezes de vida ou morte, superaram a si mesmas – ou melhor, superaram aquilo que acreditavam ser – e fizeram coisas que pareciam impossíveis. Ouvimos essas histórias, comentamos com um ou dois amigos, e rapidamente as esquecemos, voltando à rotina.
A existência dos grandes mestres espirituais é sempre um desafio a essa visão limitada. Seus feitos freqüentemente excedem aquilo que consideramos "normal" ou mesmo "verossímil". Quem já teve a graça de experimentar a presença de um mestre provavelmente se viu obrigado a rever seus paradigmas. Quem não teve encontra-se diante da opção de crer ou não crer. Jesus disse: "felizes os que não viram e creram". Tradições muito antigas, que ainda hoje estão vivas na Índia, afirmam a existência de uma linhagem de homens e mulheres que, pela devoção integral a Deus, pelo exercício sistemático da auto-observação e pela prática intensiva de diversas disciplinas iogues, atingiram um estágio supremo de desenvolvimento, realizando, em todos os planos da existência, as possibilidades divinas latentes no humano. Eles são chamados de siddhas, ou "perfeitos".
No limite, essa realização produziria uma completa transformação do indivíduo, inclusive de seu corpo físico, possibilitando-lhe conquistar a imortalidade – não para o seu benefício pessoal, mas pelo bem da humanidade. Muitos santos, de várias linhagens, experimentaram a comunhão com a Divindade no plano espiritual, mas pouquíssimos teriam alcançado a identificação total obtida pelos siddhas. Babaji, afirmam seus devotos, é o maior de todos eles.
Com um corpo sempre jovem e poderes que ultrapassam tudo o que podemos imaginar, ele permaneceria vivo há séculos, orientando pessoalmente grandes mestres e profetas e inspirando anonimamente as pessoas comuns em seu lento processo evolutivo. Sua missão: ajudar a humanidade a realizar seu imenso potencial latente, um potencial capaz de transformar o planeta em verdadeiro paraíso.
Babaji, dizem, foi o guru secreto do filósofo Adi Shankaracharya (século 9 d.C.), do poeta Kabir(século 15) e do iogue Lahiri Mahasaya (século 19). Ele também resgatou, sistematizou e atualizou a antiga ciência da kriya yoga, oferecendo-a aos homens como uma poderosa ferramenta para o seu desenvolvimento integral. Em um local inacessível do Himalaia, Babaji continuaria trabalhando em segredo, à espera do momento em que poderá enfim se mostrar publicamente.
Apesar de o trabalho de Babaji beneficiar a humanidade inteira, poucos afortunados souberam, durante séculos, de sua existência. Esse conhecimento só foi disponibilizado para o grande público na década de 1940, nas páginas do livro Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda. Nelas, Yogananda relatou acontecimentos maravilhosos, afirmando, porém, que só divulgava as informações liberadas pelo próprio Babaji. Isso não incluía nenhum dado de caráter biográfico. Anos depois, talvez considerando que seus seguidores já estivessem preparados para um pouco mais, Babaji teria comunicado a outros discípulos alguns fatos importantes de sua vida pessoal. Esse material foi publicado pelo estudioso Marshall Govindan Satchidananda em seu livro Babaji e os 18 Shiddas: a tradição da Kriya Yoga, já disponível em português. Ele nos permite compreender um pouco melhor a natureza desse mestre desafiador e os vínculos que o unem à antiqüíssima linhagem dos siddhas (1).
Como o filho do sacerdote virou andarilho Segundo Satchidananda, Babaji nasceu em 30 de novembro de 203 d.C., na aldeia de Parangipettai, no sul da Índia. Recebeu, então, o nome de Nagaraj, que significa Rei das Serpentes (2). Sua família pertencia à casta dos brâmanes (sacerdotes) e seu pai exercia função sacerdotal no templo de Shiva. Este seria também o pesado destino do menino, se um acontecimento providencial não tivesse modificado completamente o curso de sua vida: aos cinco anos, quando brincava próximo à porta do templo, ele foi seqüestrado por um estrangeiro e vendido como escravo, mais de 1000 quilômetros ao norte. Bondoso, o homem que o comprou concedeu-lhe quase imediatamente a liberdade. E assim, sem casta e sem família, Nagaraj viu-se livre no mundo. Juntou-se a um grupo de sanyasins (3) errantes. Como o campeão dos torneios tornou-se discípulo do siddha Boganathar.
De cidade em cidade, de santuário em santuário, estudando com os sábios, conversando com os eruditos, o menino acumulou conhecimentos. Com espantosa velocidade. Aos 11 anos, dominava toda a literatura clássica indiana (os Vedas, o Ramaiana e o Mahabharata, que inclui o Bhagavad Gita). Numa época em que várias escolas de pensamento competiam entre si, Nagaraj tornou-se um debatedor invencível, surpreendendo a todos por sua precocidade. Mas não estava satisfeito. Percebeu que os torneios intelectuais constituíam um fator de distração e que a erudição não o estava aproximando da verdadeira realização espiritual. Decido a achar seu caminho, empreendeu uma longa e penosa viajem, a pé e de barco, do nordeste da Índia até Kataragama, no extremo sul do Sri Lanka. Nesse lugar privilegiado, Babaji encontrou o grande siddha Boganathar, que o acolheu como discípulo. Como o discípulo superou o mestre Boganathar apresentou ao jovem a tradição dos siddhas. E lhe ensinou várias técnicas de meditação. Praticando por intervalos de tempo cada vez mais longos, até permanecer em meditação durante 48 dias seguidos, Nagaraj alcançou estados sublimes de consciência, libertando-se progressivamente das cadeias do ego e identificando-se com a Realidade Absoluta. Essas experiências culminaram com uma gloriosa visão de Murugan (4), sob a forma do Eterno Adolescente. Nagaraj então se deu conta de que estava encarnando a superconsciência associada ao jovem deus. Reconhecendo o imenso potencial de seu discípulo, Boganathar o encaminhou ao seu próprio mestre, o lendário siddha Agastyar, para que este lhe ensinasse técnicas ainda mais avançadas.
Como o menino de 16 anos obteve a iluminação Nagaraj dirigiu-se aos montes Pothigai, no sul da Índia, onde o grande siddha se ocultava. Sentando-se em uma posição de yoga, ele se pôs a rezar, disposto a não interromper a prece até que Agastyar lhe aparecesse e concedesse a iniciação. E se manteve por mais de um mês e meio no local, enfrentando o sol, a chuva e o ataque dos insetos. Mais do que tudo, enfrentava a si mesmo, superando as últimas artimanhas do ego, que o incitava a desistir. Quando o jovem estava à beira do colapso, Agastyar, que testava sua determinação, finalmente se revelou. Depois de ajudá-lo a recuperar as forças, o siddha o iniciou nos segredos da respiração iogue (pranayama). Orientado por Agastyar, Nagaraj viajou então ao Himalaia, para praticar, em completa solidão, todas as técnicas que havia aprendido. Após 18 meses de prática intensiva, o jovem obteve a suprema iluminação. Ele tinha apenas 16 anos. E acabava de se transformar em Babaji.
Como seus seguidores o vêem Para seus discípulos e devotos, Babaji é o Mahasiddha (Siddha Supremo) e o Mahavatar (Suprema Encarnação Divina). Alguns o associam a Maitreya (o Buda Futuro). Ou ao Paráclito (o Consolador), cuja vinda foi prometida por Jesus. Paramahansa Yogananda afirmou que, em íntima colaboração com Jesus, Babaji trabalha incansavelmente pela evolução da humanidade. Mas suas missões terrenas seriam de tipo diferente. A de Jesus, realizada no curso de uma vida breve, estava destinada a se desenrolar aos olhos do mundo. A de Babaji, de longa duração, pressupôs, até recentemente, quase total anonimato.
Ainda segundo Yogananda, Babaji prometeu permanecer na Terra, encarnado em um corpo físico, e acessível ao menos a um pequeno círculo de pessoas, enquanto durar o presente ciclo planetário.
Notas (1) Segundo várias tradições espirituais, Deus é a única realidade existente – uma realidade que se manifesta em todos os entes do cosmo. Isso significa que Deus estaria inteiramente presente em cada indivíduo humano. Mas a menor ou maior explicitação da essência divina dependeria do grau de desenvolvimento alcançado pela pessoa. Na maioria de nós, essa essência permaneceria implícita, à espera do momento em que poderia se explicitar. Inconscientes de nossa verdadeira identidade, seríamos, então, como flores em botão. Haveria homens e mulheres, porém, que já ultrapassaram essa etapa e, com menor ou maior intensidade, estariam desabrochando. Ossiddhas seriam flores totalmente desabrochadas. Neles, Deus se manifestaria com exuberância em todos os domínios da existência.
Antigos siddhas, como Thirumular (século 4 d.C.), descreveram detalhadamente esse processo. Narrativas semelhantes aparecem na literatura taoísta chinesa e nos escritos de grandes iogues de tempos recentes, como Ramalinga Swami (1823-1874) e Sri Aurobindo Ghose (1872-1950). Dizem esses textos que, quando os obstáculos impostos pelo ego são completamente removidos, a graça divina “desce” sobre o indivíduo, impregnando, “de alto a baixo”, todos os seus planos de existência. Ocorre então uma transformação que abarca, sucessivamente, os domínios espiritual, intelectual, mental, vital e físico. A tendência do corpo físico ao envelhecimento, à doença e à morte é considerada pelos siddhas como a última fortaleza do ego. Quando essa cidadela é conquistada pela rendição incondicional a Deus, a transformação divina se aprofundaria na matéria, alcançando os níveis celular, molecular, atômico e subatômico. O resultado seria um corpo incorruptível, que emana um suave brilho dourado. O “corpo dourado” é insistentemente mencionado na poesia dos siddhas e nos tratados taoístas.
(2) A serpente (naga) é um símbolo da Kundalini, a "energia" divina presente em todo ser humano.
(3) Sanyasins são indivíduos que renunciam à vida comum para seguir um caminho espiritual.
(4) Conhecido por 1008 nomes diferentes, Murugan, o filho de Shiva, é considerado uma manifestação juvenil do próprio Deus.

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